Olá leitores e aficionados por literatura Weird. A coluna Estronho Fiction chega até vocês para falar um pouco de um cidadão que está se tornando meu autor preferido a cada livro que eu leio.
Lembra-se que no texto anterior falamos um pouco sobre a Weird Fiction, sua origem e os três pilares sobre os quais ela foi desenvolvida, certo? Caso não lembre (ok, assumo que demorei a escrever essa segunda coluna), acesse AQUI. Pois bem, hoje o lance é com a vertente literária (res)surgida no começo dos anos 90, a chamada New Weird, que começou com um bate papo de caras que perceberam que estavam escrevendo coisas parecidas (voltamos aos tais pilares) depois que a Fantasia (High Fantasy) resolveu se “rebelar” e seguir ser próprios passos. O mais interessante, na verdade, veio um pouco depois, dado que, graças à intensa troca de ideias entre esses autores nos últimos anos, o que poderia se tornar apenas um estilo (como, infelizmente, AINDA é o New Space Opera, por exemplo) virou realmente um movimento.
Hoje eu penso no New Weird como algo que deve atingir a mesma grandiosidade de um Cyberpunk nos velhos tempos, por exemplo. Não faltarão teóricos dizendo que o movimento na verdade já acabou, deixando grandes autores como legado. Para mim, falar isso é como dizer que o rock estava morto no final dos anos 80 enquanto o Nirvana gravava loucamente. Trocando em miúdos, os ícones do movimento estão famosos (dentro do padrão da literatura não-Hollywoodiana, claro) e com os bolsos cheios? OK, estão. Mas estão vivos. E produzindo. A grande verdade é que definir algo específico como New Weird Fiction não é tarefa das mais simples, assim como não é com a própria ficção científica.
Por que deixar uma ou outra obra (ou passagens, que seja) de Stephen King totalmente fora desse rótulo? Ou até mesmo Gaiman, forçando um pouco a barra. O fato é que não é simples, mas alguns se destacaram.
E aqui vão meus dois centavos sobre aquele que, se não foi o maior incentivador do New Weird (deixo esse título a caras como John Harrison, Clive Barker e Jeff VanderMeer), certamente foi quem obteve mais sucesso e, pessoalmente para mim, o mais capacitado a transformar o movimento em algo acessível ao grande público.
China Tom (Chinatown???) Miéville nasceu em 1972 em Norwich, na Inglaterra, e hoje ensina Escrita Criativa na Universidade de Warwick. É impossível falar do rapaz sem citar sua forte veia política, que culmina com sua derrota nas votações para a Câmara dos Comuns Inglesa no ano de 2001. China tornou-se Marxista na universidade (e achamos mais um ponto para me fazer admirar ainda mais o cidadão) e escreveu um único livro político (Between Equal Rights) onde defende que os caminhos tomados pela Lei e o seu processo de decidir disputas vendo os sujeitos como abstratos e formalmente iguais, só podem ser explicados pelo fato de serem relacionados com a forma capitalista de generalizar as trocas entre commodities. Mas, vamos voltar à literatura de ficção, senão o economista aqui vai começar com uma masturbação mental ininteligível.
Em seu primeiro romance, King Rat (Rei Rato, lançado no Brasil pela Tarja Editorial), China já esboça sua veia “Power To The People”, seja através dos personagens secundários ou da quebra de paradigmas de poder que o autor descreve no final do livro, alegorizada com animais (ratos, obviamente). A obra recebeu indicações para o prêmio da Internacional Horror Guild e para o Bram Stoker Award. Se não são premiações tãããããão sensacionais, com seu segundo romance (Perdido Street Station, prometido pelo Richard Diegues – Tarja Editorial – para 2012*) China venceu o prêmio Arthur C. Clarke (2001) e o British Fantasy Award (mesmo ano), duas façanhas muito relevantes para um autor iniciante.
China tem essa tendência de criar mundos, criaturas e mitologias centradas nas grandes cidades (ou ao menos baseada nelas) e criar subtextos dignos de socos no estômago. Não é literatura pelo mero entretenimento (na verdade, pode ser se o leitor assim desejar), há também camadas de crítica social e de comportamento humano bastante claras para um leitor frequente.
Não é por menos que China Miéville tornou-se meu autor preferido dos últimos tempos (décadas?) e estende seus tentáculos sobre o que eu quero para a minha carreira como escritor. Bom, careca eu já estou... =)
Um grande abraço e até a próxima!
Thiago Ururahy
* Se não estava prometido, agora ele que se vire pra explicar. Hehe.