Sex, 30 de Setembro de 2011 16:52
Escrito por Thiago Ururahy
Olá estronhíssimos leitores!
Hoje começamos nossa saga pelo mundo das bizarrices literárias. Mas não se espante, não falaremos de autores “Labo B” ou daquele livro de contos vietnamita sobre uma criatura de... tá, já estou viajando mais do que você.
Nessa coluna falaremos de uma forma de literatura que ganhou notoriedade e fãs, vende muito bem, obrigado, e, na minha humilde opinião, é uma das vertentes mais inteligentes dentro de uma pequena bolha inserida na chamada literatura
mainstream. E, o mais legal, é estranha na medida certa. Nada mais justo do que batizar a coluna como uma homenagem à dita cuja. Bem-vindos ao mundo de
Weird Fiction!

Em linhas gerais, a Weird Fiction (nunca vi o termo traduzido para o Português, então usaremos assim mesmo) é considerada um subgênero da nossa aclamada literatura de gênero. Surgiu no final do século 19 e veio se arrastando com as próprias forças até o começo do século 20. O termo foi criado – ou ao menos, popularizado – por H. P. Lovecraft em um dos seus muitos ensaios sobre literatura e criação literária.
Há controversa sobre a Weird Fiction ser realmente um gênero (ou subgênero) ou não passar de um tipo de literatura produzido em dado período histórico. Para facilitar o entendimento, é uma discussão muito parecida com aquela que permeia os gêneros da poesia e pintura/artes plásticas, porém, esses ganham mais notoriedade e aceitação devido aos seus inúmeros “movimentos” (antropofagia, etc). Então, o que torna a Weird Fiction um gênero
per se e não apenas um momento específico na hwistória da literatura de horror, fantasia e ficção científica?
O argumento que sempre foi utilizado pelos estudiosos para defender que Weird Fiction
não é um gênero propriamente dito é o fato de que essa vertente literária ‘canibalizou’ parte dos leitores assíduos de horror e fantasia. Ou seja, o gênero não possui seus admiradores específicos, mas bebe da mesma fonte de fãs de um nicho de mercado que consome literatura de gênero. É fácil imaginar um leitor dos grandes clássicos de horror se encantar por Lovecraft ou por Lord Dunsany, ícones da Weird Fiction. Nesse ponto, os críticos estão corretos, mas calma lá! Canibalizar?!?! O termo, muito usado em Administração de Empresas quando falamos de criação de novos produtos dentro da mesma linha de produtos existentes, significa que os gêneros competiriam entre si.
Nada me incomoda mais do que autor que pensa que ganha quando o outro de estrepa. O que falar de um
gênero que pensa que ganha leitores quando o outro perde? Shame on you!!! O fato que moldou minha opinião a ponto de ignorar completamente o argumento acima é: gêneros são e sempre serão complementares. E, se fosse o caso de existir uma linha do tempo, a Weird Fiction é uma evolução que mescla os conceitos do Horror com duas posturas que poderiam ser até antagônicas: A Fantasia (aceitação por parte do leitor de um mundo estranho e sem explicações) com a Ficção Científica (a explicação da existência do mundo/criaturas estranhas de forma aceitável dentro da nossa realidade).

Nas palavras do próprio Lovecraft:
Ao escrever uma história extraordinária, eu sempre tento criar cuidadosamente o “clima” e atmosfera certos, e enfatizar o local em que aparece. Não é possível – exceto em pulps charlatonas – mostrar situações do impossível, improvável ou inconcebível da mesma forma que uma narrativa comum de atos objetivos e emoções convencionais. Eventos e condições inconcebíveis tem um obstáculo a superar, e isso só pode ser realizado através da manutenção de um realismo cuidadoso em cada frase da história exceto no que toca àquela única maravilha. Essa maravilha deve ser tratada deliberadamente e de forma impressionante ou parecerá bidimensional e pouco convincente.Ninguém vai deixar de ler Horror só porque gostou do livro novo do China Miéville. Mas o leitor evolui, e escrever no século 21 é ligeiramente diferente.
O Rompimento com a Fantasia – Eu Quero é Rock!Não há como falar da Weird Fiction sem citar a revista
Weird Tales, surgida em 1923 e considerada a grande reveladora de talentos como H. P. Lovecraft e tantos outros. Lá atrás, em um passado longínquo quando telefones celulares eram uma parafernália de Jornada nas Estrelas, a revista baseava-se na tríade Horror, Fantasia, Ficção Científica (o cerne da Weird Fiction). Até que a nossa querida irmã Fantasia resolveu que deveria ser mais importante. E foi.
Ocorreu um
boom tão intenso de obras magníficas de Fantasia (e aí fincamos o pé com força na chamada High Fantasy, ou Alta Fantasia) que uma distinção de veículos se fez necessária. A Fantasia ganhou seu espaço individual, suas revistas específicas e, segregou de uma vez por todas a literatura de gênero.
E por muito tempo vivemos em mundos separados:
Fantasia – Dragões, Elfos e Magia
Ficção Científica – Naves Espaciais, Raças Alienígenas
Horror – Vampiros, Lobisomens, Espíritos
“Oncinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo, vão se...” – Titãs, Bichos Escrotos.Até que...
New Weird, a Weird Fiction do Século 21Iniciado na década de 90, o New Weird propôs um retorno aos conceitos da Weird Fiction, e trouxe às luzes do sucesso autores cujas obras novamente se baseavam nos três pilares. Entre os autores dignos de nota temos China Miéville (
Perdido Street Station, The Scar, Iron Council, King Rat) e Jeff VanderMeer (
Veniss Underground, Shriek: An Afterworld, Predator: South China Seas e Finch).
Vale notar que o movimento não foi simplesmente uma decisão de pessoas que queriam escrever Weird Fiction de novo, como uma reunião de condomínio. Ele simplesmente teve a necessidade de ser rotulado (pela própria mídia, mas claro que os autores deram uma “forcinha” para isso), pois começamos a notar que muitas pessoas de lugares diferentes e formações literárias diferentes estavam escrevendo o mesmo estilo de coisa no mesmo período.
De acordo com as palavras do próprio Jeff VanderMeer, o gênero é
“uma espécie de ficção em um mundo secundário e urbano que subverte as ideias romantizadas dos lugares encontrados na fantasia tradicional, principalmente por escolher modelos complexos e realistas do mundo real (...) que podem combinar elementos tanto de ficção científica quanto de fantasia".Ou seja, na visão dos próprios autores, o movimento de criação do gênero veio mais uma vez da necessidade de rompimento com clichês estabelecidos pela Fantasia ao longo das décadas, e nada melhor do que uma boa
Ficção Bizarra para fazê-lo.
O mundo realmente é redondo.
THIAGO URURAHY nasceu no dia 12 de Maio de 1982 em São Paulo, capital. Tem em Neil Gaiman, China Miéville e George R. R. Martin suas maiores inspirações. Formado em Economia pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, Thiago trabalhou no mercado financeiro por longos 8 anos, até resolver levar adiante sua real vocação: contar histórias.