Seg, 29 de Novembro de 1999 21:00
Escrito por Frederic "O Ziza"
Isto aconteceu com o amigo de um tio meu, que é proprietário de uma grande fazenda próximo ao pantanal.
Na época em que estava se falando muito no tal do chupa-cabras, na fazenda deste amigo nosso, algumas reses estavam aparecendo mortas da noite para o dia e o corpo dos pobres animais aparecia quebrado, como um verdadeiro saco de ossos, como se uma mão gigante viesse e os amassasse como uma folha de papel e os deixasse lá para ser descoberto.
Pois bem, o fazendeiro, irritado com as perdas, foi até a cidadezinha mais próxima, e num daqueles bares que se deve entrar armado para não ter problemas, daqueles lugares onde todos os mau elementos da vizinhança se reúnem para beber e badernar, propôs uma recompensa muito boa para quem capturasse ou matasse a coisa que estava acabando com seu rebanho de novilhos.
Foi só ele anunciar em voz alta a proposta que imediatamente vários homens levantaram aceitando a jornada, que deveria ser à noite, pois era quando a criatura saia para matar sua criação. Não seria uma tarefa difícil, sua fazenda era enorme, mas apenas pastos de vegetação rasteira, e o único lugar onde a criatura poderia estar escondida, era em uma grande capoeira, no "rego" onde duas montanhas se encontravam se formava uma pequena floresta bem fechada e alta.
Logo os jagunços, matadores e mercenários de plantão, todos muito machões, foram à noite para a fazenda. Eram 10 homens no total. Para acabar com a confusão de tantos homens armados e loucos para descarregarem suas cartucheiras na primeira coisa que se movesse na frente deles, o fazendeiro distribuiu lanternas para todos os 10 homens e organizou uma linha onde a cada aproximadamente 10 metros ficaria um homem ao lado e juntos eles entrariam na floresta num tipo de operação pente-fino, não dando chance a criatura de escapar ou passar desapercebida por nenhum deles.
Havia um dos jagunços que estava muito eufórico e ficava repetindo:
- "Essa recompensa já é minha, eu é que vou matar esse bicho! Eu não tenho medo não!"
Assim sendo, na sua euforia ele saiu na frente dos outros homens, esperando ter mais chances de levar o prêmio. A escuridão reinava no lugar, meu tio conta que você só sabia que tinha alguém do seu lado por causa das luzes das outras lanternas a alguns metros e dos passos cuidadosos no meio do mato.
Ninguém dava um pio, todos concentrados na caçada. Enquanto isso o valentão sumia cada vez mais na frente, embranhando-se mais e mais na mata. Instantes depois, que o macho-man já havia sumido de vista, toda a turma houve um grito desesperado à frente, e antes que qualquer um possa dar uma ordem ou ir socorrer o fulano, ele surge no horizonte, correndo no sentido contrário da patrulha gritando como um louco:
- "É O CAPETA!!!!"
O grito dele funcionou como um imã, ele passou pelos homens arrastando todo mundo com ele, não ficou nenhuma alma viva pra trás, todos correram por suas vidas, largando lanternas, armas e tudo que tinham nas mãos. Quando o fazendeiro conseguiu por as mãos no amedrontado machão, isso já na sede da fazenda, ele só repetia:
- "EU VI!! É ELE MESMO!!! TEM A CARA VERMELHA E CUMPRIDA! ELE LEVANTOU E TENTOU ME AGARRAR!!!"
Não houve dúvida, ninguém mais queria saber de prêmio ou de recompensa nenhuma e o fazendeiro teria que se virar sozinho para se livrar do problema. Na manhã seguinte, no bar, na cidade, não se falava em outra coisa, e ninguém aceitava a oferta do fazendeiro e sua fazenda assombrada. Ele dobrou o prêmio, deu garantia, implorou e a resposta era sempre a mesma:
- "Eu só posso matar o que tá vivo, num dá pra matar o que já tá morto..."
Com muito custo ele conseguiu juntar 2 homens para ir com ele de volta a mata, e novas armas como; água benta e bíblias se somaram ao armamento escolhido pelos caçadores. Naquela noite teria que se resolver aquela situação, e de noite, os 3 (meu tio amarelou) foram para a toca do "ziza" e entraram na mata só que desta vez um colado no outro sempre olhando para todos os lados, na maior tensão prestando atenção em qualquer barulhinho... no meio da mata, eles se deparam com uma moita bem alta de capim gordura se mexendo, como se tivesse algo atrás dela, fuçando no chão e não tiveram dúvida,
-"Tá lá o Ziza!"
Ficou um empurra empurra para ver quem ia lá conferir o que era e acabou sobrando para o desesperado proprietário que, vagarosamente se aproximou e começou a abaixar a moita de cima para baixo com sua calibre 12 cano duplo e quando ele ia ver o que era o bicho, LEVANTA UMA CRIATURA DESCOMUNAL, VERMELHA E DE BRAÇOS ABERTOS PARA CIMA DELE, EMITINDO UM RUÍDO QUE SÓ PODERIA VIR DO INFERNO!!! Sem pensar duas vezes o pobre homem "desce o dedo" no gatilho da cartucheira e só se escuta o estrondo, um flash cegante da pólvora, lanterna caída para um lado, fazendeiro para o outro e os outros dois homens saíndo em disparada gritando rezas e pedindo perdão pelos pecados!!!
Sozinho e com a arma descarregada o fazendeiro desnorteado com a aparição pega a lanterna e ilumina o local para onde ele atirou e para sua surpresa, ele vê um TAMANDUÁ BANDEIRA vermelhinho fugindo daquela confusão toda e mais assustado que todo mundo!
Voce conhece a expressão "abraço de tamanduá"? pois é, é um abraço muito apertado que o tamanduá dá para se defender, se ele se sente ameaçado ele abraça com toda sua força descomunal seu atacante. Essa é a defesa dele! Pois bem, o animal não foi atingido pelos disparos e por se tratar de um animal em extinção, o fazendeiro chamou o Ibama que levou o animal para um local seguro dias depois.
O fazendeiro jamais contou a ninguém da cidade sobre o fato e até hoje todo mundo jura que a fazenda do "seu Tonho" é habitada pelo Ziza em pessoa e ninguém se mete a besta com ele desde então. Seus vizinhos venderam barato suas terras e hoje ele é o maior proprietário da região, graças ao medo e a crendice popular.
Quase um Causo
Comentários
narrativa, gostei muito nota 10.
:roll:
O site é que engoliu os parágrafos. Quando fiz o upload do causo há 13 anos atrás ele estava formatado. Foi se perdendo com as mudanças de layout do Estronho.
E caramba não sabia que isso ainda estaria aqui. 13 anos! Postei isso quando conheci os caras no Prêmio IBest em São Paulo.
O site é que engoliu os parágrafos. Quando fiz o upload do causo há 13 anos atrás ele estava formatado. Foi se perdendo com as mudanças de layout do Estronho.
Você é que não sabe contar. Leia de novo. Meu tio não foi e ele não era o dono da fazenda, era apenas amigo dele.
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