Seg, 29 de Novembro de 1999 21:00
Escrito por Fox Mulder
Bem, não aconteceu realmente comigo, mas, fui testemunha ocular de uma estranha ocorrência. Na época eu estava empregado na PM de Casimiro de Abreu. Se existir interesse por parte dos leitores em averiguar os fatos, comece pelo Hotel do Ximenez, no centro da cidadezinha. Mande qualquer matuto relatar o acontecido na gélida noite de 03 de outubro de 1985 e o caro editor poderá conferir a veracidade do que vou relatar.
Que Deus permita que não me falte a memória!
Meu codenome daqui pra frente será Mulder e pretendo me manter no anonimato.
Como eu estava dizendo, eu estava empregado na Polícia Militar da pequena cidade de Casimiro de Abreu e naquela noite úmida e fria desempenhava o meu papel cumprindo uma ronda noturna lá pelo lado da estradinha que leva ao solitário Arraial de Sana. O meu fusquinha branco e azul pingueleava entre solavandos e descidas.
Pelo rádio, não muito intelegível, recebi uma convocação. Entrecortada por ruídos de esletroestática, a mensagem me chegou faltando detalhes.
Do pouco que ouvi apenas consegui identificar que quarto de hora antes, um caminhão carregado de bananas, vindo em sentido a Casimiro, avistou outro veículo abandonado à beira da estrada. Sem pestanejar decidi ir ao encontro do veículo.
Já quase no meio do caminho, me veio uma angústia e decidi não perder tempo. Liguei para a base, e no intuito de não perder a viagem, solicitei maiores informações sobre o local exato do avistamento.
Para meu desconsolo, a eletroestática voltou a interromper as comunicações. Não achei estranho; nem me importei de início. Hoje, passados alguns anos, me vem uma questão: o que teria impedido a troca de informações via rádio naquela noite?
O sombrio não para por aí. A mão misteriosa da providência move as pedras e nos faz cair em armadilhas.
Ao virar a estrada indo em direção a travessia do rio que cortava o vale daquela região, após a pinguela, mirei dois feixes de luz amarela por sobre a vegetação da beira da estrada. O carro parecia ter sido abandonado às pressas; os ocupantes largaram, além de seus víveres, todos os documentos e pertences. A escuridão e o abandono do local assustava. Aproximei a carteira de identificação do motorista de minha lanterna e o identifiquei. O automóvel era de propriedade do Sr. Waldomiro, conhecido publicamente em Casimiro por sua estreita relação amorosa com uma das filhas do prefeito.
Dentro do veículo abandonado pude constatar que ali, pouco tempo antes, havia estado outras três pessoas. Mas o que teria feito abandonarem o único jeito de chegar a algum lugar? Para responder, decidi ligar o a viatura. Para meu espanto o carro pegou de primeira e, com a primeira marcha engatada, ameaçou com um pulo, morrendo logo em seguida.
Atônito, retomei o meu fusquinha. A minha única ligação com a cidade continuava interrompida.
Senti um calafrio percorrer todos os meu ossos; era uma mistura de frio, impotência e temor.
A madrugada descia impiedosamente negra e por um momento uma névoa encobriu algumas estrelas.
Por um momento, quando da descida da névoa, enquanto ainda refletia sobre aquela situação, as luzes do veículo e do meu fusquinha ameaçaram desligar. Foi rápido; elas piscaram. O corte de energia, pelo motivo que tenha sido, não demorou muito.
Saquei a minha lanterna e busquei o meu relógio: uma e meia da manhã. Faltavam trinta minutos para o fim de meu plantão e eu ali, parado.
Já dentro do meu carro dei a partida. Olhei o odômetro e, logo acima, o relógio interno: uma e meia da manhã. Voltei ao meu relógio de pulso: uma e meia da manhã. Algo saíra errado. Não podia ter acontecido e logo comigo ali, no meio do nada.
O que teria acontecido com aquela gente? Onde estariam? E por que saíram correndo daquela maneira capaz de largar para trás todos os objetos pessoais?
A minha resposta, srs. leitores, não viria naquela noite.
Passados dois meses, e já tendo esquecido este episódio, em uma ronda noturna no centro de Casimiro, assisti o meu colega de profissão conduzir apressadamente a sua viatura em torno da praça principal. A sua chegada ao posto policial despertou curiosidade. Suas feições era rígidas; trazia na face os traços de uma síncope nervosa. Seu semblante parecia mais gélido que aquela noite de verão. A pele branca e opaca do rosto de Raimundo escondia algo. Foi demorado fazê-lo falar. Não adiantou a água com acúcar que demos àquele homem assustado.
O seu relatório foi curto e veemente. O homem tinha toda a certeza do mundo: o que tinha acabado de ver deslizando sob os céus de Casimiro era um barco. O formato, descrevera o homem, era o de um charuto. Quando percebeu que estava sendo observado, disse o policial, levantou vôo como um relâmpago. No chão, do local onde saiu, quatro corpos desfigurados; suas digitais haviam sido arrancadas e os rostos removidos. Isso mesmo, sr. Editor, foram removidos.
O reconhecimento só veio através de análise das arcadas dentárias e a lista foi afixada no mural do posto do IML em Macaé, local para o qual foram removidos os corpos na manhã seguinte.
Não sou eu quem conto ou espalho essa história. Como disse, querendo conferir, é só perguntar pelo caso dos quatro corpos achados na estrada a caminho de Sana no final de 1985. Quem ousar comentar irá confirmar os poucos detalhes que dei daquela fatídica noite.
Sim, e por falar nos mortos, como primeiro da lista estava Waldomiro José Pessegueiro Santana. Diz que o prefeito da cidade todo ano transforma o dia em feriado local em homenagem ao seu ex-futuro genro.
Alienígenas
Comentários
Assine o RSS dos comentários