A casa da minha avó era realmente assustadora. Um sobrado muito antigo, com o subsolo cheio de quartos podres, mofados, que mais pareciam masmorras, um deles em que a empregada era obrigada a dormir.
Um carpete marrom muito escuro que cobria todas as áreas com exceção da cozinha e dos banheiros. Uma sala dupla, com um horrível sofá roxo e almofadas horrorosas. à noite, ficava muito escuro, pois a sovinice da minha avó fazia com que ela usasse apenas a metade das lâmpadas dos horríveis lustres florais. Crucifixos por toda a parte, e quadros horríveis pela casa toda.
Era quase impossível ir ao banheiro à noite, pois era preciso acender um interruptor que ficava na sala e outro que ficava acima da escada. E subir aquilo no escuro era horrível demais.
Acima da escada... três quartos. Todos eles com móveis muito velhos e horríveis, que foram parar em minha casa. Um quadro assustador do Sagrado Coração de Jesus e Maria, com àrvores horríveis atrás, e um armário assustador. Lâmpadas especiais horríveis dos lados da cama, e um enorme espelho horrível. Muito dark.
No quarto ao lado, um horrível quadro de Jesus, um escritório horroroso e... uma prateleira, que eu me arrependi do dia em que a havia espiado, pois o que vi lá dentro foi assustador. Em um dos quartos, um armário cheio de livros espíritas. A casa tinha livros espíritas até mesmo no porão. Era assustadora.
Tinha uma parte legal... uma garagem coberta, que saía no quintal dos fundos, parecia uma masmorra medieval e fazia eco. Eu gostava daquele lugar, apesar de ser horroroso.
Um dia tive que dormir naquela casa e um vento estranho me pegou, sendo que a janela estava fechada, e a cortina também se mexia.
A casa hoje não existe mais. Se transformou em clínica estética.
Mas sempre tive sonhos horríveis com a casa.
O primeiro foi quando eu era muito pequena. Sonhei que estava subindo a escada, que era de degraus de pano, que podiam rasgar me fazendo cair. Levou muito, muito tempo para eu conseguir chegar no alto, e quando cheguei... havia uma aranha enorme, preta com listras laranjas, tentando me pegar, e até eu descer ela já ia ter me pegado. Pedia ajuda, e me xingavam de boba.
Em outra ocasião... eu subi as escadas com sentimento de curiosidade. Haviam (no sonho) muitos quartos onde eu jamais havia entrado. E estava curiosa. Alguns davam em labirintos, e eu resolvi não entrar. Um outro...
Nele o carpete passava a ser roxo, as paredes douradas e ele era todo acortinado de veludo roxo e vermelho. Lá havia algo como uma tumba, recoberta do mesmo carpete. De alguma forma, eu sabia que o que havia lá dentro era um corpo sagrado. Muito sagrado. Tão sagrado que podia ao mesmo tempo trazer salvação e condenação.
Haviam ali seis portas de pedra, que eu não fazia idéia de onde podiam levar, pois além delas era escuro. Algo me dizia que era muito ruim, algo como o inferno. O lugar das almas condenadas...
Segui por salas das quais eu não sabia voltar. Vi monstros, mulheres de 4 braços com véus, dançarinas sagradas com véus, ouro, muito ouro, e bronze, e tesouros de todos os tipos, detalhe: tesouros sagrados ou de muito valor, coisas que haviam pertencido a realezas... em toda a parte haviam carrancas de leões... tudo bem satânico, mas de alguma forma parecia divino, ao menos no sonho, e, num lugar no subsolo, fui dormir num quarto de ruínas de carpete vermelho-inferno, onde de quando em quando circulavam pessoas já falecidas... de carne e osso, melancólicas como almas condenadas... então a empregada tinha acabado de falecer, e avisou que "estava descendo", e eu teria que dormir numa cama mofada. As pessoas insistiam em dizer que não era assim tão ruim, mas era.
Em outro sonho, a casa estava para ser demolida, e só haviam restado os tijolos amarelos nus, e eu fui dar uma última espiada nos poços sem fundo e sem parapeito onde minha avó castigava as pessoas jogando-as lá dentro, e ás vezes alguém caía por acidente, quando ouvi a voz da empregada lá dentro, pedindo ajuda, e eu não podia fazer nada...
O quintal tinha um muro demolido, onde dava para ver os fundos das outras casas, e haviam mais poços.
Num outro, a casa já estava semi-demolida, e descobriu-se que ela havia sido construída em cima de uma igreja colonial, e estávamos catando os azulejos coloniais valiosos quando... a escada ruiu e ficamos presos no andar de cima, até que um pedreiro nos viu e nos salvou.
Num outro, eu havia herdado a casa reformada e agora luxuosa, com torres onde dava para ver um belo jardim e a bela rua arborizada, e eu previ a entrada de um ladrão, que dias depois, entrou (no sonho).
O que isso poderia significar?
Comentários
Ou que a casa tivesse realmente certas emanações. Nunca se sabe. :-x
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