No ano passado, o Brasil teve a oportunidade de admirar no Museu de Arte de São Paulo, MASP, duas obras do maior mestre da pós-renascença, Caravaggio. O que poucos sabem é que, além de seu estilo vigoroso, sua perfeição no uso do chiaroscuro , suas expressões pulsantes e sua maestria na técnica do escorço (ilusão de que um objeto ou parte do corpo se projeta para fora da tela) , também a sua vida foi uma obra épica, cheia de acontecimentos inesperados, revezes, glórias e com um final inesperado. Um pintor de extremo talento, mas que não conseguiu superar o peso do reconhecimento nem controlar a inconstância emocional que lhe era peculiar; que morreu jovem , e teve a difícil missão de substituir a estética de mestres como Rafael, Michelangelo e Leonardo da Vinci, deixando toda uma geração de seguidores, os caravaggescos. | ![]() |
Michelangelo Merisi nasceu em Milão no dia 29 de setembro de 1571, entre uma família que, apesar de não abastada, possuía certo conforto econômico e social. Já aos seis anos de idade, o jovem Merisi abandonou, junto à sua família, a cidade natal em direção à pequena Caravaggio. Eles fugiam do flagelo da peste, e apesar de tudo, morreram o pai, os avós paternos, e um dos irmãos, Pietro, abatidos pela doença. Condenado a uma existência muito mais modesta, e sustentado somente pela mãe, Michelangelo voltou a Milão em 1584, quando foi contratado na condição de aprendiz do pintor Simone Peterzano. No período entre 1588 e 1594 ele trabalhou para pintores de menor talento, até que em 1594 começa a vender suas obras através de negociantes, e chama a atenção de um importante Cardeal, que o apadrinha. Nesta época ele já é conhecido como Michelangelo Merisi da Caravaggio, cidade na qual viveu por toda sua infância. Era um artista de seu próprio tempo, inspirado pela realidade dos antros e das tabernas, e retratava boêmios, bêbados e mendigos. Dizia "A Vida oferece demasiado modelos- belos ou feios- para que seja preciso buscá-los na Antigüidade", numa época em que a influência renascentista ainda estava muito em voga. Suas obras eram de um realismo naturalista, em que as imagens não eram idealizadas, e a violência era mostrada sem eufemismos. Tudo isso colaborou para uma série de duras críticas contra o seu trabalho, contra as quais o pintor não regia passivamente. Apesar da reputação crescente que conquistava, seu temperamento e gênio forte colaboraram para uma onda de repulsa à sua obra. Eis aqui parte de sua ficha criminal no período de 1600 a 1605:
1 prisão e 2 denúncias por agressão;
1 denúncia por morosidade;
1 prisão e várias denúncias por injúria ;
2 prisões por porte de armas abusivo.
Em 1606, após uma disputada partida de tênis (!?) , Caravaggio mata o adversário de jogo Ranuccio Tomassoni.O crime chocou a sociedade da época e o pintor começou a ser perseguido. A partir daí, sua vida seria de constantes fugas de cidade em cidade, de onde era expulso assim que sua condição de homicida era descoberta. Foi nessa época de extrema penúria e dificuldades que as obras-primas de Caravaggio foram concebidas, dando início a um novo movimento artístico: o Barroco. Os contrastes entre luz e sombra era extremos, produzindo penumbras asfixiantes entre luzes teatrais. As expressões eram dramáticas e a força emotiva das cenas, gritante. Caravaggio foi um pintor de extremos. O religioso e o profano se revezavam como temas de suas obras, e o homem violento era protegido pela Igreja. Foi o chefe dos tenebrosi, pintores que se utilizavam dos efeitos entre luz e sombra para realçar a dramaticidade das cenas, e influenciou mestres do Barroco, como Rubens.
Em 1610, o Papa lhe concedeu o perdão e a permissão para retornar a Roma. Caravaggio se encontrava na cidade de Porto Ercole, e parecia que finalmente poderia gozar do sucesso e tranqüilidade que seu talento lhe proporcionava. Porém, dias antes de seu regresso a Roma, o pintor é preso injustamente e permanece por dois dias na prisão. Ao ser liberado, parte desesperadamente em direção à praia, onde o navio que o levaria à capital italiana o esperava. Ao chegar ao local, porém, o navio acabara de partir levando todos os seus pertences e deixando-o na mais extrema miséria. Abatido pela aflição, pelo desespero e pelo azar de sua condição, ele é acometido por uma estranha febre e morre lá mesmo, no dia 18 de julho de 1610, aos 39 anos.
Francesco Albani, conteporâneo do pintor, disse certa vez: "O estilo de Caravaggio é a destruição total da nobre e exímia arte da pintura." Hoje, com telas que não possuem preço, Caravaggio nos mostra que é só através da inovação que conseguimos manter o fluxo da arte vivo, cumprindo o seu papel de incitadora de idéias e esclarecedora de consciências.
Comentários
Garibaldo Retruca Kaboub: Meu, Por favor, não fala merda!
Garibaldo retruca: Esse é o mal de todo brasileiro. Por isso somos um dos paises que menos lê no mundo.
bacana ou ....cool!!!
Me ajudou muito, estava fazendo uma pesquisa acerca de Michelangelo e só percebi que estava usando o dados sobre outro "Michelangelo" ao ler seu texto!
Parabéns!
Impressiona assim como todos os psicopatas potenciais, gênios em suas vocações inatas e perículos em seu caráter.
Não sentia afetividade, emoção, empatia. O mundo dos racionais é dividido entre emotivos e monstros apáticos de emoção. Entre nós e caravaggios.
Tinta nas telas e sangue nas mãos...
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